Teoria das janelas quebradas e ordem pública: A polícia ostensiva de volta à sua vocação

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Isângelo Senna

Doutorando em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Pesquisador no Influência.

 

O artigo Broken Windows: The police and neighborhood safety de George L. Kelling e James Q. Wilson foi publicado em 1982 na revista The Atlantic. Fato curioso é que essa revista, hoje com mais de 160 anos, não é um periódico científico. Ainda assim, os argumentos defendidos por Kelling e Wilson são conhecidos pelo epíteto de Teoria das Janelas Quebradas (ou Broken Windows Theory) e, desde então, vem recebendo forte atenção não apenas da comunidade acadêmica, mas principalmente de gestores públicos.

Os autores iniciam o artigo se referindo a uma ação de segurança pública ocorrida na década de 1970 no Estado americano de Nova Jersey. Na ocasião o Estado financiou a implementação de policiamento ostensivo à pé em 28 cidades. Em que pese a resistência para com essa modalidade de policiamento que se encontrava em descrédito, o programa foi levado à frente. Cinco anos depois, estudos empíricos da Police Foundation mostraram que, embora não tenha havido impactos significativos nas taxas criminais, verificaram-se menores escores de medo do crime e melhor avaliação da polícia por parte do público onde o programa foi implementado. Na mesma direção, os policiais do policiamento à pé mostraram posturas mais positivas em relação aos cidadãos do que seus colegas escalados no policiamento em viaturas.

O artigo sugere que as pessoas não estavam enganadas quanto à eficácia do policiamento à pé. Em verdade, tão quanto o crime propriamente dito, a comunidade pesquisada temia ser perturbada por praticantes de comportamentos antissociais e imprevisíveis, como prostitutas, drogaditos e portadores de transtornos mentais. O policiamento à pé permitia que o policial conhecesse quem eram as pessoas que frequentam o bairro e as distinguia dos estranhos ao ambiente. A familiaridade com a área permitia que o policial identificasse, com ajuda do público, tornasse as regras informais estáveis na comunidade. Consequentemente, havia a preservação da ordem.

O texto segue explicitando o que é a Teoria das Janelas Quebradas. Para tanto, os autores recorrem ao experimento realizado por um dos psicólogos sociais mais influentes até os dias de hoje, Philip Zimbardo. O mesmo pesquisador do experimento da prisão de Stanford (Zimbardo, 2011), em 1969 colocou veículos sem placa e com ares de abandono no Bronx (Nova York) e em Palo Alto (California). No primeiro caso, o vandalismo e a destruição do carro ocorreu de forma rápida (10 minutos) e por pessoas ordinárias da comunidade. Já em Palo Alto, bastou uma janela quebrada, para que a integridade do veículo que já durava semanas fosse completamente violada. A partir desse exemplo, Kelling e Wilson passam a argumentar como as desordens físicas geram desordens comportamentais que, por sua vez, levam a crimes e ao medo do crime em qualquer comunidade.

Há também um debate interessante sobre o papel da polícia, algo já tratado em uma obra co-autorada por Wilson sobre as mudanças sofridas pela polícia ao longo da história. De uma agência responsável pela ordem pública, a polícia passou a se ocupar da prevenção de crimes apenas no século XX. Até então, essa era uma atribuição de natureza eminentemente privada. Prevenção criminal, solução de crimes e realização de prisões passaram a ser temas mais afetos à polícia apenas com a explosão de crimes observada a partir da década de 1960. Contudo, segundo os autores, com o passar do tempo a relação da preservação da ordem com a prevenção criminal deixou de ser algo óbvio para a polícia ostensiva.

Em seguida o trabalho aborda as diferentes interações com a comunidade permitidas pelo policiamento à pé e pelo policiamento motorizado. Apenas o primeiro permitiria aos policiais realmente se envolverem com a comunidade por meio de relacionamentos pessoais e efetivos. Inclusive, essa seria a melhor forma da polícia contribuir para a preservação da ordem e para o reforço das regras informais em vigência na comunidade.

Um desafio, entretanto, seria conjugar o papel de mantenedora da ordem com o de agência de law enforcement da polícia. Kelling e Wilson citam que nas duas décadas que antecederam o artigo, a polícia estava experimentando esse novo papel pelo qual ainda não havia passado. No lugar da prisão ser uma medida-meio e excepcional para a preservação ou restabelecimento da ordem em uma determinada comunidade, agora passava a ser um fim em si mesmo. Além disso, a prisão teria passado a existir apenas como forma de se reforçar a importância dos cidadãos cumprirem as leis. Por outro lado, os policiais passaram a ter menos autonomia para impor a ordem,  por não poderem usar medidas restritivas de direito que não estivessem previstas em regras formais e universais. Os efeitos da luta antimanicomial sob o trabalho da polícia é sutilmente citado no texto. A agenda anti-institucionalização teria retirado dos policiais um instrumento importante para o afastamento de ébrios e doentes mentais das ruas. Por outro lado, um ilimitado poder discricionário por parte da polícia poderia ser usado de forma distorcida e causar tensões raciais, por exemplo.

Como vias para a solução da dicotomia entre preservação da ordem e aplicação stricto sensu da lei, os autores sugerem que algumas iniciativas tomassem escala. Um caminho seria a própria comunidade assumir o papel de manutenção da ordem, sem precisar apelar para instrumentos burocráticos e de repressão formal de más condutas. Como exemplo de iniciativas do tipo, o texto cita programas conduzidos por civis voluntários desarmados, como “vigilantes” e “anjos da guarda”.

Os autores sugerem algumas medidas para se enfrentar a queda brusca no número de policiais à época. A contratação de policiais de folga por algumas comunidades poderia gerar resultados mais efetivos do que a contratação de seguranças privados. Outra opção seria policiais, mesmo no patrulhamento motorizado, randomicamente realizarem a fiscalização de posturas em estações de metrô e ônibus. O reforço de regras relativas ao fumo, à ingestão de bebida alcóolica e de condutas antissociais poderia trazer para esses locais o mesmo clima civilizado dos aeroportos, por exemplo.

O último recado dos autores é pelo reforço do papel da polícia frente à preservação da ordem pública. A polícia deve buscar proteger a comunidade da mesma forma que protege o indivíduo. Essa visão deveria ter impacto na formação dos policiais. Porém, à comunidade caberia a tarefa de se manter as janelas intactas ou reparadas.

Algo que precisa ser alertado é o risco da transposição da abordagem em seu sentido literal para contextos que não o dos Estados Unidos ou de países com semelhante perfil cultural, como Canadá, Inglaterra e Austrália. Dois exemplos de encaminhamentos propostos pelos autores fazem parte da realidade brasileira, mas com resultados nefastos para a segurança pública e para a integridade física de seus agentes. O emprego paraestatal de vigilantes civis e ex-militares em locais como Rio de Janeiro pode ser associado à formação de milícias, que hoje em nada se diferem de outros grupos criminosos. Já o trabalho do policial militar na condição de segurança privada no horário de folga, além de carecer de respaldo legal no Brasil, representa grande parte da mortalidade desses agentes por causas externas (Fernandes, 2015; Minayo, Souza & Constantino, 2007).

Em que pese tratar-se bem mais de um ensaio do que de um trabalho acadêmico propriamente dito, o artigo de Kelling e Wilson articula vários trabalhos com experiências empíricas, inclusive com diversos inputs da psicologia social e da psicologia ambiental. Mesmo não explicitando termos como difusão de responsabilidade, ignorância pluralística, apego ao lugar e espaços defensáveis, esses conceitos permeiam todo o trabalho. Isso mostra o quanto a psicologia tem a contribuir para a prevenção criminal e a redução do medo do crime. O mesmo vale para os aportes da sociologia urbana da Escola de Chicago que estão subjacentes nos argumentos dos autores, ainda que não são explicitamente declarados. Um exemplo disso se verifica quando Kelling e Wilson praticamente descrevem o processo invasão-dominação-sucessão (Freitas, 2002), ao relatar as etapas de substituição dos usuários legítimos dos espaços por grupos de delinquentes.

Da leitura do artigo, infere-se que a criminalidade deve ser combatida no nível local e em sua gênese: as pequenas desordens físicas e comportamentais presentes no quotidiano da comunidade, como mostramos em artigo científico recente sobre parques públicos (Senna, Iglesias, & Vasconcelos, aceito). O exemplo mais relevante de aplicação desse princípio foi o programa Tolerância Zero, levado a efeito pela Prefeitura de Nova York. O sucesso desse programa levou a Teoria das Janelas Quebradas e seus próprios autores a alcançar enorme popularidade nos anos 1990 (Bratton & Knobler, 2009). Não há dúvidas que, com as devidas adaptações culturais, os princípios e estratégias em realce no artigo ainda hoje podem gerar insumos para pesquisas e políticas públicas no Brasil.

Referências

Bratton, W. & Knobler, P. (2009). The Turnaround: How America’s top cop reversed the crime epidemic. New York: Random House.

Fernandes, A. (2015). Vitimização policial: Análise das mortes violentas sofridas por integrantes da Polícia Militar do Estado de São Paulo (2013-2014). EAESP-Escola de Administração de Empresas de São Paulo.

Freitas, W. C. P. (2002). Espaço urbano e criminalidade: Lições da Escola de Chicago. São Paulo: IBCCRIM.

Martin, J. P., & Wilson, G. (1969). The police: A study in manpower – The evolution of the service in England and Wales, 1829-1965 (Vol. 24). Londres: Heinemann Educational Publishers.

Minayo, M. C. D. S., Souza, E. R. D., & Constantino, P. (2007). Riscos percebidos e vitimização de policiais civis e militares na (in) segurança pública. Cadernos de Saúde Pública, 23, 2767-2779.

Senna, I., Iglesias, F., & Vasconcelos, A.M.N. (no prelo). Parque público e criminalidade: Preditores ambientais da percepção de (in)segurança. Gerais: Revista Intersinstitucional de Psicologia.

Wilson, J. Q., & Kelling, G. L. (1982). The police and neighbourhood safety: Broken windows. Atlantic Monthly, 3, 29-38. Disponível em https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1982/03/broken-windows/304465/

Zimbardo, P. (2012). O efeito Lúcifer: Como as pessoas boas se tornam más. Rio de Janeiro: Record.

Eleições 2018, comportamentos desonestos e tomada de decisão

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Lude Marieta Neves

Doutoranda em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Pesquisadora no Influência.

Encontramo-nos agora no segundo turno do processo eleitoral, em que deputados e senadores foram já eleitos, mas continua a disputa pelos cargos de presidente da República e de governadores em todo o país. O contexto fervilha, portanto, com oportunidades de discussão sobre influência social, persuasão, relação entre intenção comportamental e comportamento de fato, desonestidade e tomada de decisão, para minimamente citar alguns fenômenos típicos de psicologia social.

Esses fenômenos são de fácil identificação. Já examinou como os candidatos a cargos eletivos se comportam durante suas campanhas? Já identificou como gesticulam, como usam a voz, como apresentam sua postura corporal, com quem aparecem nas fotos publicitárias? São todas estratégias de persuasão, semelhantes àquelas utilizadas por vendedores, cujo objetivo é convencer você a efetivar a compra, com a diferença de que o candidato quer se vender ou o seu partido político. A psicologia tem uma forte tradição de pesquisas nesse campo de estudo, interessado em explicar os processos cognitivos e comportamentais envolvidos na tomada de decisão, dada a sua evidente utilidade prática (Cialdini, 2016[1]). 

Outro exemplo fácil de ser compreendido são as pesquisas de intenção de voto. Independente das fontes de informações (com diferentes níveis de confiabilidade e viés), o ser humano é curioso socialmente: quer saber o que se passa na cabeça dos outros para poder chegar às suas próprias conclusões. Estamos falando de influência social, ou seja, processos de grupo que influenciam a cognição e o comportamento individual e grupal. Um desses processos de grupo, denominado conformidade, acontece quando o sujeito adere à norma social percebida, mesmo que ela contraste com sua convicções pessoais e até com estímulos objetivos, como mostram os experimentos clássicos de Solomon Asch[2] (Asch, 1951[3]). No delineamento mais conhecido desses estudos, o participante ingênuo tinha que escolher, entre três linhas, aquela que tinha comprimento idêntico à da linha modelo. No entanto, após ouvir a mesma resposta, evidentemente errada, dos colegas no grupo (todos atores), alguns participantes também escolhiam a linha errada, conformando-se à norma do grupo. É essa tendência que leva, por exemplo, o eleitor a decidir por candidatos que aparentem ter mais chances de eleição, com base nas pesquisas que indicam quais são as intenções de voto na população.

Essa lógica nos leva a refletir em seguida sobre a maneira como é realizado o processo decisório, tão ligado a normas sociais, mas também sobre quão desonesta e enganosa pode ser a estratégia de persuasão adotada para influenciar os eleitores. Normalmente, as pessoas estão pouco interessadas em saber como foram feitas as pesquisas: se por telefone ou presencial, no papel ou no tablet, com perguntas abertas ou fechadas e em qual ordem foram apresentadas. Seu interesse maior se concentra nos resultados, nos gráficos estatísticos, nas tendências e previsões ao longo do tempo e, basicamente, no diagnóstico de como pensa a maioria dos eleitores. Até a bolsa de valores e o dólar variam conforme os resultados dessas pesquisas e as propostas econômicas dos candidatos “mais cotados”. Tendo em vista o poder da elaboração e disseminação da informação e da opinião no cenário político, essa estratégia acaba sendo amplamente explorada pelos candidatos e por seus eleitores para influenciar e persuadir as pessoas e grupos.

A psicologia social mostra que para tomar as nossas decisões nós utilizamos dois sistemas de processamento: um que é mais rápido e automático, por usar atalhos mentais; e um que é mais lento e trabalhoso, por usar o raciocínio consciente (Fiske & Taylor, 2008[4]). Didaticamente, em psicologia, separamos esses dois sistemas, mas na prática eles funcionam o tempo todo coligados e se complementam para conduzir o processo de tomada de decisão. Quando, por exemplo, o eleitor quer saber apenas o resultado “bruto” das pesquisas de intenção de voto, observando os gráficos, está usando predominantemente um atalho para tomar uma decisão mais rápida. Quando, por outro lado, o eleitor quer entender como esses resultados foram obtidos, quem coletou os dados e qual a sua fonte, está predominantemente usando o sistema cognitivo consciente.

Essa explicação nos leva a entender como a desonestidade pode ser empregada na campanha eleitoral. Partindo do pressuposto de que os eleitores estão cansados de ter que escolher a partir de um menu amplo e diversificado de candidatos ao cargos executivos e legislativos, os estrategistas enganosos abusam de informações rápidas, resumidas e atrativas, como as fake news (notícias fabricadas para enganar pessoas) e os memes[5] (imagens com texto curto, geralmente empregando humor, difundidas pela internet) para direcionar a decisão política das massas. O problema tem sido considerado tão sério que há quem chame as eleições 2018 de “Eleições dos memes e fake news[6], e não se trata de um fenômeno apenas brasileiro: as eleições presidenciais nos EUA também enfrentaram problema semelhante.

Finalmente, nesse contexto de insegurança política, aliada a um papel importantíssimo e definitivo das redes sociais, é fundamental alertar-se sobre o conteúdo acessado, consumido e compartilhado. Não significa que o sistema automático é melhor ou pior que o sistema consciente. Significa que, utilizados apropriadamente, ambos auxiliam numa tomada de decisão mais segura e confiante. O Facebook, por exemplo, está disponibilizando dicas rápidas para identificar fake news e conter a onda de desinformação no canal. Esse conteúdo, apresentado em formato de check-list, utiliza a estratégia automática para chamar a atenção de seus usuários e provoca a internalização do comportamento desejado. A iniciativa está sendo divulgada na timeline de seus usuários, tendo em vista que apenas o trabalho de agências de checagem de fatos, como o do Portal de Notícias G1, não está sendo suficiente para reduzir o fenômeno. A quantidade de fake news é desproporcionalmente maior que a quantidade de iniciativas tentando desmenti-las. Em termos psicológicos, o papel do (e-)leitor nesse movimento pode ser o de refletir sobre essas provocações e educar sua rede de contatos virtuais para seguir o caminho da honestidade intelectual e disseminação de conteúdo confiável nas redes sociais.

 

Quer saber mais sobre as modalidades de fake news e as iniciativas internacionais para sua contenção? Acesse o vídeo “Fake News e Manipulação”, disponível em: http://www.futuraplay.org/video/fake-news-e-manipulacao/438910/

[1] Cialdini, R. (2017). Pré-suasão: A influência começa antes mesmo da primeira palavra. Rio de Janeiro: Sextante.

[2] https://www.simplypsychology.org/asch-conformity.html

[3] Asch, S. E. (1951). Effects of group pressure upon the modification and distortion of judgment. In H. Guetzkow (ed.). Groups, leadership and men. Pittsburgh, PA: Carnegie Press.

[4] Fiske, S. T., & Taylor, S. E. (2008). Social cognition: From brains to culture (1st ed.). New York: McGraw-Hill.

[5] Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller “O Gene Egoísta” para se referir à menor unidade de memória coletiva, numa analogia à nossa carga genética.

[6] https://www.huffpostbrasil.com/2018/08/02/meme-e-fake-news-como-a-internet-transforma-a-discussao-politica_a_23491045/

 

Como mensagens podem salvar vidas: Influência social e o tráfico de pessoas

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Jonathan Jones
Doutorando em Ciências do Comportamento, mestre em Psicologia Social, comunicólogo e publicitário. Pesquisador no Influência

Fabio Iglesias
Doutor em Psicologia, Professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, na Universidade de Brasília, onde coordena o Influência

TráficoHumanoA parceria entre ciência e segurança pública gerou uma história retumbante de sucesso. Diversos procedimentos investigativos saíram de artigos científicos e laboratórios universitários, nas mais variadas áreas, diretamente para o dia a dia dos agentes. A psicologia, por exemplo, tem espaço cativo nas forças policiais mais competentes do planeta, “decifrando” a mente dos criminosos e levando ao delineamento de estratégias que assegurem o cumprimento da lei. A literatura científica disponível sugere, por exemplo, que o processo de criar e manter hábitos deve pautar-se em certos pontos-chave. No contexto do combate ao tráfico de pessoas, esse arcabouço empírico pode ser sumarizado na seguinte estratégia: as vítimas precisam saber que a ajuda existe – e que está a pronto alcance.

Assim, primeiramente, é necessário comunicar – e aqui, do começo ao fim, achados e insights das ciências comportamentais podem nos guiar rumo ao jeito mais assertivo de conseguir isso. No tráfico de pessoas, uma campanha triunfante deve partir do pressuposto de que procurar ajuda envolve mudança em dois níveis: na cabeça das pessoas e em seus atos. Isso porque as pesquisas sobre o tema sugerem que vítimas de crimes como esses sequer se enxergam dessa maneira! Um programa de mudança de comportamento deve, portanto, começar daí: as pessoas precisam reconhecer seu status de vítima, identificando quais os sinais desse crime. Pode parecer contra-intuitivo, mas, ao se ver dentro de um cenário extremamente intenso como esse, é comum perder-se na sua complexidade emocional. É por isso que compreender a forma como pensamos pode ser genuinamente valioso.

A psicologia social é a disciplina científica que estuda táticas de influência – acumulando aproximadamente cem anos de conhecimento rigoroso, e com diversos conselhos para dar. A primeira dica, consequentemente, envolve impedir que certos erros simples aconteçam. É preciso, por exemplo, tomar cuidado com o que os pesquisadores chamam de “prova social” – o uso de dados sobre a quantidade de pessoas realizando um determinado comportamento. Divulgar a porcentagem de vítimas de um certo crime pode acabar constituindo um verdadeiro tiro no pé, tornando “natural” a atividade criminosa – e, como efeito colateral, impulsionando sua ocorrência! Sim, é totalmente possível estimular um crime ao tentar preveni-lo!

Obviamente, os anúncios devem também frisar o quanto é fácil, rápido e seguro buscar ajuda. Telefone, endereço eletrônico na Internet e locais de assistência devem ser reconhecidos em um relance. Lembre-se: para ocorrer, o comportamento precisa ser incentivado e facilitado. Além disso, é mais inteligente (em termos de recursos) que as mensagens sejam direcionadas para grupos que se encaixem no perfil típico das vítimas, preferencialmente em áreas de maior risco – ambientes de trânsito frequente de viajantes, como aeroportos, fronteiras e pontos turísticos. Melhor ainda se a ajuda puder ir até a vítima (postos policiais e patrulhamento especializado nesses lugares estratégicos). Por fim, a mensagem deve ser repetida exaustivamente!

A facilidade de acesso à ajuda é essencial para prevenir esse crime. É difícil para a vítima procurar assistência? Qual a credibilidade dos profissionais que a oferecem? Qual a qualidade dessa ajuda? Policiais beneficiam-se, intrinsecamente, de um dos princípios mais poderosos identificados pelos cientistas sociais: o poder de serem autoridades legítimas. Uma série de experimentos assombrosos conduzidos na década de 1950 nos EUA (e, dentro do limite da ética, replicados recentemente) mostraram o quanto as pessoas parecem suscetíveis à influência das autoridades. Estudos recentes também colocaram sob um microscópio o quanto vestir um uniforme aumenta o poder de convencimento de um indivíduo. Finalmente, demonstrar capacidade e profissionalismo ao lidar com a vítima contribui para fortalecer a imagem de autoridade.

Um outro princípio fundamental da psicologia social deve ser considerado na luta contra esse crime. Para aumentar ainda mais a credibilidade dos policiais, podemos usar a nosso favor uma das principais táticas que os próprios traficantes empregam para abordar e recrutar suas vítimas: a empatia. Guarde na memória que, em muitos casos, as ameaças vêm apenas após a vítima ser atraída para a armadilha através de amabilidade e promessas. Novamente, a psicologia tem ensinamentos formidáveis sobre quais as características que uma pessoa precisa ter para ser mais confiável. A aparência, a forma de se vestir, toques e, principalmente, as palavras, têm um papel de destaque nessa dinâmica. Policiais, assim como vendedores, precisam dominar a ciência da simpatia!OlhaaFacaA psicologia social revelou-se um aliado impressionante no combate a um número de crimes, como o tráfico de pessoas. Os estudos mostram que o comportamento de procurar ajuda, por parte das vítimas, pode ser incentivado por meio de uma abordagem que envolva comunicar, de maneira crível e convincente, a existência da ajuda. Tornar a assistência acessível, amigável e segura é a etapa seguinte. Combinados, os dois caminhos abrem espaço para que esse crime possa ser finalmente enfrentado de uma perspectiva efetivamente científica.

 

A psicologia social do ‘Baleia Azul’

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Angélica Oliveira
Mestranda em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações na Universidade de Brasília e pesquisadora do Influência

Jonathan Jones
Doutorando em Ciências do Comportamento na Universidade de Brasília e pesquisador do Influência

Raquel Hoersting
Ph.D. em Psicologia Clínica, Associate Director of Clinical Experience na University of Prince Edward Island (Canadá) e pesquisadora associada do Influência

A partir de 2016, mais uma ameaça digital passou a tirar o sono dos pais. Era o jogo Baleia Azul, que consistia em uma série de desafios que culminaria com o suicídio do participante. Para a psicologia social, a disciplina científica que estuda como influenciamos e somos influenciados, o Baleia Azul aproveitaria-se, de forma engenhosa, de tendências existentes nas pessoas para atraí-las e mantê-las no jogo. Um dos maiores estudiosos dessa área é Robert B. Cialdini, professor emérito de Psicologia da Universidade do Estado do Arizona (EUA), que identificou diversos princípios psicológicos ligados à mudança comportamental de indivíduos. Dois deles podem ser encontrados nas tarefas do Baleia Azul e parecem desempenhar um papel-chave na dinâmica do jogo.

blue-whale-gameO primeiro deles é o “princípio da consistência”, um motivador central do comportamento humano e provavelmente a principal força por trás do jogo. Ao introduzir previsibilidade no relacionamento entre os seres sociais, a consistência é chave para facilitar a convivência entre estes. O enorme poder exercido por essa tendência explica, por exemplo, o desconforto mental provocado pela coexistência de duas crenças ou pensamentos contraditórios na mente do indivíduo, fenômeno que a psicologia nomeia de “dissonância cognitiva”.

No Baleia Azul, o comprometimento é o gatilho que ativa a consistência. O truque do jogo é começar com pedidos iniciais pequenos, como assistir a filmes de terror durante a madrugada. Ao realizar essas tarefas iniciais mais simples, a armadilha do comprometimento é ativada, estimulando o participante a cumprir os desafios seguintes. Ou seja: ao comprometer-se com a tarefa inicial, cria-se uma tendência automática para que o jogador aja de forma consistente e conclua os demais desafios. Esse é um fenômeno simples, mas bastante poderoso, conhecido pela psicologia social como “pé-na-porta” (Freedman & Fraser, 1966). Fora do Baleia Azul, esse mesmo mecanismo tem usos muito menos sinistros, tendo sido utilizado para aumentar o número de doadores de sangue e ajudar as pessoas a pararem de fumar.

A “prova social” é outra tendência que ajuda a explicar o impacto persuasivo do Baleia Azul nos jovens, estando bastante associado a casos de suicídio. De acordo com esse princípio, o indivíduo comum está mais propenso a consentir com um pedido se ele for coerente com o que os seus semelhantes parecem pensar. Essa é a força por trás do chamado “efeito Werther” (Phillips, 1974), de acordo com o qual um suicídio ostensivamente noticiado pela mídia pode tornar-se contagioso, encorajando cópias. O conceito de prova social foi utilizado para se tentar compreender as causas do suicídio coletivo dos membros da seita Templo dos Povos, na Guiana em 1978 (Cialdini, 2006). Comandados pelo reverendo Jim Jones, 918 de seus seguidores envenenaram-se, a maioria de livre e espontânea vontade. Como explicar isso? Isolados em uma floresta tropical, toda a prova social existente indicava que as ordens do líder religioso deveriam ser cumpridas à risca, e assim aconteceu.

No Baleia Azul, a prova social está presente em vários aspectos do jogo. O intenso contato com o tema, via reportagens, compartilhamentos nas redes sociais e conversas com amigos, criam o sentimento generalizado de que esse comportamento é comum e natural – diminuindo a sensibilidade das pessoas ao tema, normalizando o Baleia Azul e até mesmo gerando empatia pelo jogo – um fenômeno que a psicologia conhece e tem estudado por pelo menos 50 anos. Além de tudo isso, convivência contínua com o assunto pode aumentar a curiosidade e o interesse por ele.

A prova social também pode ser identificada em diversas fases do jogo onde a pessoa deve encontrar-se com outros participantes do Baleia Azul. Ter contato com outros indivíduos parecidos com você mesmo, vivendo circunstância parecidas, é uma maneira de validar a própria conduta, o que pode ser ainda mais potente em jovens depressivos e solitários, o perfil típico do jogador do Baleia Azul. Por estarem distantes socialmente, essas pessoas possuem poucas referências de qual o melhor comportamento a ser adotado – e acabam tomando como exemplo o que pensam outros jogadores, em uma espiral catastrófica.

Sabendo que os princípios apelam a tendências humanas universais, como resistir? Os estudos sobre consistência e prova social mostram que prevenir é ainda o caminho mais efetivo. Impedir que os filhos sequer comecem a jogar o Baleia Azul é a medida fundamental que cabe aos pais. Para tanto, é necessário ser cauteloso antes de concordar com pedidos, por mais triviais que possam parecer.

Já a prova social pode ser propositalmente manipulada para criar um ambiente saudável. As amizades constituem um indicativo muito claro de qual é o comportamento esperado entre crianças e adolescentes. Cercar-se de influências positivas, em um ambiente de respeito mútuo, é definitivamente a melhor defesa contra a evidência social negativa.

Referências

Cialdini, R. B. (2006). Influence: Science and practice. Boston: Allyn & Bacon.

Freedman, J. L., & Fraser, S. C. (1966). Compliance without pressure: The foot-in-the-door technique. Journal of Personality and Social Psychology, 4(2), 195-202.

Phillips, D. P. (1974). The influence of suggestion on suicide: Substantive and theoretical implications of the Werther effect. American Sociological Review, 39(3), 340-354.

Fim dos tempos: A psicologia das profecias que sempre falham (pelo menos até agora!)

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Jonathan Jones
Doutorando em Ciências do Comportamento na Universidade de Brasília e pesquisador do Influência (www.influencia.unb.br)

Fabio Iglesias
Doutor em Psicologia, Professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, na Universidade de Brasília, onde coordena o Influência

Se o mundo fosse acabar / Me diz o que você faria
Brandão & Moska (1995)

Primeiro teste de uma bomba atômica, em 16 de julho de 1945.

Histórias e profecias sobre o fim dos tempos habitam o imaginário popular desde o início da humanidade – e o interesse pela temática não parece diminuir, apesar de todas as óbvias evidências contrárias. Na cultura popular, por exemplo, a Terra já foi quase vítima dos mais impressionantes desastres apocalípticos, de ataques alienígenas a asteroides, passando por hecatombes nucleares, mudanças climáticas, pandemias e até zumbis. A lista é ainda maior: o único limite para as possibilidades de catástrofes é realmente o que pode ser imaginado.

Mas muita gente também leva esse assunto a sério fora da ficção. A Bíblia e vários outros textos religiosos dedicam um espaço substancial de suas páginas para revelações sobre o fim – com um grande impacto sobre as vidas dos fiéis. A religião, entretanto, não detém o monopólio dessas profecias. Narrativas como essas possuem as mais inusitadas fontes: dos textos de Nostradamus (1503-1566) ao Calendário Maia, famosamente predizendo o fim do mundo em 2012. Até o físico inglês Isaac Newton calculou uma data para a destruição do planeta!

Do ponto de vista da Psicologia, e mais especificamente da Psicologia Social, o fascínio por profecias apocalípticas pode ser explicado, em parte, por uma abordagem utilizada por pesquisadores para compreender e estudar o comportamento humano: a Teoria do Gerenciamento do Terror. Essa teoria nasceu a partir das ideias do antropólogo cultural e escritor premiado Ernest Becker que, influenciado por pensadores existencialistas, escreveu uma série de livros em que propunha que a consciência da própria finitude seria um motivador fundamental do comportamento humano. De acordo com essa perspectiva, portanto, evitar a lembrança da mortalidade seria o objetivo central da vida. O que Becker procurava fazer era justamente integrar diversas pesquisas da psicologia, aparentemente fragmentadas, em uma única linha de pensamento.

A partir dessa inspiração, um trio de doutores recém-formados (Thomas Pyszczynski, Jeff Greenberg e Sheldon Solomon) resolveu testar, em experimentos de laboratório, o quanto a teoria poderia ser utilizada para entender, de fato, a psicologia humana. Os três combinaram as idéias de Becker com fenômenos investigados em laboratórios experimentais da psicologia social, cognitiva, clínica e de desenvolvimento, além da emergente psicologia evolucionista, de acordo com a qual a mente humana foi moldada por leis da seleção natural, como na teoria de Charles Darwin.

Para a Teoria do Gerenciamento do Terror, a autoestima, a atividade sexual, o preconceito e a maioria dos fenômenos estudados pela psicologia são apenas mecanismos de defesa, que existiriam para nos distrair do medo da morte (Solomon, Greenberg, & Pyszczynski, 2015; Darrell & Pyszczynski, 2016). São muitas as possibilidades contempladas por essa perspectiva. A cultura, por exemplo, ofereceria uma visão ordenada e reconfortante do mundo. O contato com outros povos, entretanto, ameaçaria a fé das pessoas nessa organização e causaria ansiedade existencial. Centenas de experimentos, realizados em dezenas de países, fornecem evidências empíricas de que vários aspectos da teoria estariam corretos.

A Teoria do Gerenciamento do Terror ainda pode ser utilizada, por exemplo, para explicar fenômenos de grande interesse da sociedade, como estratégias políticas fundamentadas no uso do medo (Pyszczynski, 2004) – da qual líderes como George W. Bush e Adolf Hitler foram acusados de tirar proveito (Gardner, 2008; Pratkanis & Aronson, 2002), assim como várias empresas atualmente (Lindstrom, 2011). Por outro lado, de maneira mais positiva muitas campanhas de mudança de comportamento se valem das aplicações da teoria, em áreas como prevenção de acidente no trânsito, promoção da saúde e da segurança no trabalho.

A relação da psicologia com o Apocalipse não termina aí. Além de parte fundamental do que prevê a Teoria do Gerenciamento do Terror, o fim dos tempos já foi personagem central em um dos episódios mais interessantes da psicologia social: o estudo do culto apocalíptico The Seekers, que merece ser detalhado. Em setembro de 1954, um jornal de Chicago, no estado de Illinois, EUA, publicou uma matéria de duas colunas sobre uma dona de casa chamada Dorothy Martin, que havia profetizado que, em 21 de dezembro daquele mesmo ano, os Grandes Lagos – um conjunto de cinco lagos gigantescos e interligados, situados no centro da América do Norte – transbordariam, provocando uma grande inundação que se estenderia do Círculo Ártico ao Golfo do México. Ao mesmo tempo, um cataclisma colossal afundaria toda a Costa Oeste Americana, da Cidade de Seattle nos EUA até o Chile. De acordo com a reportagem, Dorothy alegava ter recebido as mensagens de seres superiores provenientes do planeta Clarion, via escrita automática – algo como a psicografia. Esses seres, intitulados “Guardiões”, visitariam a Terra com frequência em seus discos voadores, e em uma dessas viagens teriam percebido linhas na crosta terrestre que indicariam a catástrofe.

Dorothy possuía também um culto de seguidores fiéis, os tais Seekers – um grupo de aproximadamente trinta pessoas, para os quais transmitia “ensinamentos cósmicos” desses seres extraterrenos. Muitos receberam com grande choque e preocupação a notícia de que o mundo acabaria. Mas Dorothy os tranquilizou: aqueles que pertencessem ao culto e vivessem de acordo com as lições recebidas seriam salvos pelos Guardiões, que os transportariam em suas naves espaciais até um local seguro. As ideias de Dorothy sequer eram originais: muito do que ela falava podia ser encontrado em revistas populares, livros sensacionalistas e até mesmo em colunas de jornais diários.

Por mero acaso, três psicólogos sociais da Universidade de Minnesota souberam da notícia sobre o culto e enxergaram aí uma oportunidade formidável de pesquisa, motivados principalmente pela seguinte questão: qual seria a reação dos membros do grupo ao perceberem que o mundo não acabou? O trio não só se infiltrou no culto, disfarçado de seguidores, como também pagaram observadores extras para fazer o mesmo e registrar, com detalhes, tudo o que viam. Tudo foi feito para garantir a seriedade dos dados coletados.

De imediato, os pesquisadores perceberam um grande comprometimento por parte do seguidores do culto, que, àquela altura, começavam a se preparar para a partida. Eles desafiavam suas famílias, amigos e vizinhos e insistiam em suas crenças; alguns largaram seus empregos e outros doaram todos os seus bens. Outra característica que chamou a atenção foi a falta de vontade dos membros em espalhar a palavra ou procurar por novos fiéis, apesar de não terem dúvidas a respeito da profecia. Muito pelo contrário: os anúncios nos jornais haviam sido uma exceção. De maneira geral, os cultistas evitavam publicidade exagerada acerca de suas crenças, protegendo as lições recebidas e instituindo códigos e palavras secretas.

Conforme a hora do resgate alienígena se aproximava – as mensagens indicavam a meia-noite do dia 20 – os seguidores despiram-se de todo o metal em seus corpos, exatamente como recomendavam as instruções cósmicas. Após certificarem-se de que haviam cumprido à risca o exigido, os cultistas começaram a aguardar, inertes e no mais absoluto silêncio.

Quando o relógio finalmente marcou meia-noite, a tensão atingiu um ápice. Os cultistas esperavam, cheios de excitação e ansiedade. Mas nada aconteceu…

Os visitantes interplanetários não apareceram. Os membros da seita pareciam atônitos, sem conseguir compreender. O tempo continuou a passar. Às 04h00, a maioria continuava em silêncio, incrédula. Alguns balbuciavam tentativas acanhadas de explicações. Dorothy começou a chorar amargamente. Os outros membros demonstraram sinais de impaciência. Visivelmente abalados e à beira das lágrimas, o grupo parecia próximo da dissolução. Os pesquisadores acompanhavam atentos o clímax da história.

Subitamente, algo inusitado aconteceu: Dorothy começou a “receber” uma mensagem. Eram os Guardiões e tinham respostas: de acordo com eles, aquele pequeno grupo havia espalhado tanta luz que Deus havia decidido poupar a Terra!

A explicação não foi bem recebida por todos os membros. Um deles deixou a casa imediatamente, insatisfeito. Ainda havia dúvida no ar. Nesse momento, Dorothy resolveu fazer algo que jamais havia feito até então: alcançou o telefone e começou a discar o número de um jornalista, com enorme senso de urgência e ímpeto renovado para comunicar ao mundo o que se passou. A mensagem agora era mais importante do que nunca.

O mesmo aconteceu aos outros membros. O culto, muito discreto até aquele momento, viu na desconfirmação da profecia uma motivação para espalhar os ensinamentos dos Guardiões e converter fiéis, abrindo as portas ao público, com mais determinação do que jamais tiveram! Para espanto geral, o fracasso da profecia havia fortalecido as crenças dos seguidores de Dorothy – mas era uma possibilidade prevista pelos pesquisadores infiltrados. Tudo isso porque acompanhar o culto dos Seekers tinha sido uma boa oportunidade, em campo, para uma teoria que ganhava cada vez mais força na psicologia social:  a teoria da dissonância cognitiva.

Para começarmos a entender direito essa história, precisamos voltar até uma das figuras mais importantes da psicologia social: Kurt Lewin. Lewin era um pesquisador brilhante que havia deixado a Europa no mesmo ano em que Hitler chegara ao poder. Sua ida para os EUA impulsionou enormemente o desenvolvimento dessa ciência – ainda muito tímida na época. Lewin orientou grandes nomes do meio, como Roger Barker e Morton Deutsch, mas também um jovem nova-iorquino filho de imigrantes russos, chamado Leon Festinger.

Leon Festinger

Após se formar em psicologia no City College de Nova Iorque, Festinger deu continuidade à carreira acadêmica, realizando um mestrado e um doutorado na Iowa State University. De lá, seguiu para estudar com Lewin em seu recém-estruturado grupo de pesquisas no Massachussetts Institute of Technology, onde se encantou pela psicologia social e iniciou uma promissora carreira na área. Festinger interessava-se, especialmente, por temas relacionados à comunicação social e à pressão em grupos, e para estudar esses fenômenos começou a distanciar-se das perspectivas teóricas dominantes à época, como o behaviorismo e a teoria psicanalítica. Ao longo de sua vida, Festinger também enfatizou a importância de experimentos de laboratório – mas sem deixar de lado os estudos em campo. Após a morte de Lewin, ele passou a atuar como professor em diversas universidades de alto prestígio, como a famosa Stanford, na Califórnia.

Ao lado de Henry Riecken e Stanley Schachter, Festinger era justamente um dos pesquisadores infiltrados no culto de Dorothy Martin. Suas observações do grupo e de suas reações foram registradas no livro When Prophecy Fails (Quando a profecia falha), publicado dois anos depois. No livro, para proteger a identidade de Dorothy Martin, os pesquisadores deram à ela o pseudônimo “Marian Keech” e Chicago tornou-se Michigan. Muitos dos conceitos explorados por Dorothy em seu culto haviam sido copiados da Cientologia, uma miscelânea religiosa bastante popular atualmente, que inclui estrelas do cinema como Tom Cruise e John Travolta. A Cientologia havia nascido naquele mesmo ano e Dorothy Martin conhecera L. Ron Hubbard, seu fundador. A verdade é que cultos cataclísmicos como o de Dorothy não são tão raros quanto gostamos de imaginar – ou mesmo tão inofensivos. Um caso icônico é o Templo dos Povos, do Reverendo Jim Jones, que resultou no suicídio coletivo de mais de 900 pessoas, no fim dos anos 1970 (uma análise psicossocial instigante dos processo por trás desse episódio pode ser encontrada em Cialdini, 2012). O surgimento de cultos é um fenômeno comum a muitas culturas, e seus membros causam um impacto poderoso nos mais diferentes lugares do mundo. Em 1995, um grupo liderado por Shoko Asahara liberou gás venenoso no metrô de Tóquio, no Japão. O próprio Estado Islâmico, por exemplo, já foi descrito como um “culto apocalíptico” pelo ex-presidente Barack Obama durante um discurso na ONU.

Os eventos inacreditáveis do dia 21 de dezembro deixariam qualquer um perplexo,  mas não Festinger. Para ele, os acontecimentos bizarros presenciados no culto de Dorothy Martin poderiam ser explicados por uma teoria que ele havia proposto poucos anos antes: a Teoria da Dissonância Cognitiva. De acordo com sua teoria, quando um indivíduo mantém duas ou mais cognições (ideias, crenças ou opiniões), inconsistentes umas com as outras, isso criaria um estado de desconforto físico – a chamada “dissonância”. As pessoas tentariam reduzir esse estado desagradável, geralmente protegendo a crença mais resistente à mudança. Para reduzir a dissonância, pode-se adicionar crenças consonantes, suprimir crenças dissonantes, aumentar a importância das crenças consonantes ou simplesmente reduzir a importância das crenças dissonantes (Harmon-Jones & Harmon-Jones, 2007). Um exemplo clássico de como essas possibilidades podem ser enxergadas na prática é a pessoa que acredita que os cigarros causam câncer, mas continua a fumar mesmo assim.

As cognições “fumar não é saudável” e “eu fumo dois maços por dia” obviamente são conflitantes, o que gera dissonância. Afinal, se o indivíduo sabe que fumar pode matá-lo, seria lógico não continuar com esse comportamento. Ao experimentar o desconforto gerado por essa inconsistência, a pessoa poderia, por exemplo, acrescentar cognições novas (“sim, eu fumo e sei que isso pode me matar, mas também pratico esportes e tenho uma boa alimentação, o que deve fazer alguma diferença”); ele ou ela poderia mudar um desses pensamentos (“fumar não é tão ruim ou tão prejudicial quanto dizem”), o que restauraria o equilíbrio cognitivo; o fumante também poderia mudar seu comportamento, parando de fumar; por fim, as pessoas poderiam simplesmente trivializar a inconsistência (“eu fumo e sei que cigarros são ruins, mas não me importo”). Essas seriam tentativas de racionalizar o comportamento, uma forma de aliviar a incoerência mental que, por sua vez, traria consequências físicas (Croyle & Cooper, 1983)

A dissonância cognitiva oferece explicações convincentes para os fenômenos observados no culto de Dorothy e em muitas crenças no fim do mundo. A teoria prevê que, ao serem confrontados com a desconfirmação de suas crenças, uma das reações possíveis é justamente a renovação da fé e um aumento súbito na vontade de propagar as ideias do culto. A validação social substituiria a evidência física, o que aliviaria o conflito mental (Cialdini, 2012). Analisando o fenômeno, Festinger e seus colegas especificaram, com muita clareza, cinco condições que determinariam o aumento no empenho dos cultistas em converter novos fiéis após a inequívoca desconfirmação de uma crença: a existência de convicção; o compromisso para com essa convicção; a possibilidade de uma desconfirmação inequívoca (como aconteceu quando os discos voadores não chegaram e o fim do mundo não ocorreu); uma desconfirmação inequívoca; e a presença de apoio social após a desconfirmação (Festinger, Riecken, & Schachter, 1956).

Proposta em 1957, a teoria da dissonância cognitiva completa hoje 60 anos. Pesquisas sobre essa teoria dominaram o campo da psicologia social por muito tempo, revolucionando a maneira como vários processos eram encarados e ainda hoje influenciando muitas áreas. A dissonância cognitiva conseguiu explicar com sucesso os resultados de experimentos de laboratório sobre escolhas, persuasão e justificativas (Harmon-Jones & Harmon-Jones, 2007). No primeiro caso, quando utilizada para entender os processos por trás de decisões difíceis, revelou que as pessoas tendem a enxergar a alternativa rejeitada como mais negativa do que normalmente fariam após se comprometerem com uma das opções (Brehm, 1956); em outro contexto, os participantes de um estudo receberam incentivos fortes e fracos – na forma de dinheiro – para convencer outros a realizar uma tarefa tediosa que eles mesmos haviam desenvolvido momentos antes. Aqueles que obtiveram uma quantia pequena passaram, de fato, a acreditar que o procedimento não era, afinal de contas, tão chato assim, uma pesquisa engenhosa que evidenciou os processos que propiciam a influência – ou “aquiescência induzida” (Festinger & Carlsmith, 1959); e também permitem a compreensão da justificativa de esforço (Aronson & Mills, 1959), demonstrando que indivíduos envolvidos em um processo seletivo exigente passaram a valorizar muito mais a aprovação do que outros que enfrentaram um teste mais fácil, entre muitos outros.

Ao longo dos anos, outros pesquisadores buscaram atualizar e trazer melhorias para a teoria da dissonância cognitiva. Aronson (1968, 1999) propôs que a dissonância ocorreria quando a pessoa agisse de forma que violasse seu autoconceito, seu senso de si mesma; para Steele (1988), as pessoas seriam motivadas a manter uma autoimagem de integridade moral; Cooper e Fazio (1984), por outro lado, defendem que o desconforto não seria gerado pelo conflito entre cognições, mas por sentir-se pessoalmente responsável por uma consequência aversiva. Já Harmon-Jones (1999) acredita que a dissonância incomodaria porque as cognições conflitantes interfeririam na capacidade do indivíduo de executar ações efetivas – e essa incompatibilidade dificultaria a tradução de decisões em comportamentos.

A teoria da dissonância cognitiva é amplamente reconhecida como um marco para o estudo da mente humana, fruto da perspicácia e engenhosidade de Leon Festinger, um homem de muitos talentos e interesses, autor de estudos provocantes que ajudaram a popularizar a psicologia social e a apresentá-la como um campo estimulante para novos pesquisadores, cheio de perguntas esperando respostas espetaculares. Esse cientista extraordinário faleceu em fevereiro de 1989, vítima de um câncer que ele escolheu não tratar (haja redução da dissonância!), deixando contribuições inestimáveis para a psicologia social, muitas delas repercutindo até hoje. Seu legado continua a inspirar mais uma geração de pesquisadores, entre eles os autores deste texto.

Mas e quanto a Dorothy Martin? Bem, ela morreu em 1992 – então pelo menos para ela o fim realmente chegou.

 

Referências

Aronson, E., & Mills, J. (1959). The effect of severity of initiation on liking for a group. Journal of Abnormal and Social Psychology, 59, 177–181.

Brandão, B., & Moska, P. (1995). O último dia. Em Pensar É Fazer Música [CD]. São Paulo: EMI-Odeon.

Brehm, J. W. (1956). Postdecision changes in the desirability of alternatives. Journal of Abnormal and Social Psychology, 52, 384–389.

Cialdini, R. B. (2012). As armas da persuasão: Como influenciar e não se deixar influenciar. Rio de Janeiro: Sextante.

Cooper, J., & Fazio, R. H. (1984). A new look at dissonance theory. In L. Berkowitz (Ed.), Advances in experimental social psychology(Vol. 17, pp. 229–264). Orlando, FL: Academic Press.

Croyle, R. T., & Cooper, J. (1983). Dissonance arousal: Physiological evidence. Journal of Personality and Social Psychology, 45(4), 782-791.

Darrell, A., & Pyszczynski, T. (2016). Terror Management Theory: Exploring the role of death in life. In L. A. Harvell & G. S. Nisbett (Eds.), Denying death: An interdisciplinary approach to Terror Management Theory(pp. 1-15). New York: Routledge.

Festinger, L., & Carlsmith, J. M. (1959). Cognitive consequences of forced compliance. Journal of Abnormal and Social Psychology, 58, 203–210.

Festinger, L., Riecken, H. W., & Schachter, S. (1956). When prophecy fails: A social and psychological study of a modern group that predicted the destruction of the world. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Gardner, D. (2008). The science of fear: Why we fear the things we shouldn’t – and put ourselves in greater danger. New York: Dutton.

Harmon-Jones, E. (1999). Toward an understanding of the motivation underlying dissonance effects: Is the production of aversive consequences necessary to cause dissonance? In E. Harmon-Jones & J. Mills (Eds.), Cognitive dissonance: Progress on a pivotal theory in social psychology(pp. 71–99). Washington, DC: American Psychological Association.

Harmon-Jones, E., & Harmon-Jones, C. (2007). Cognitive dissonance theory after 50 years of development. Zeitschrift für Sozialpsychologie, 38(1), 7-16.

Lindstrom, M. (2011). Brandwashed: Tricks companies use to manipulate our minds and persuade us to buy. New York: Crown Publishing Group.

Pratkanis, A., & Aronson, E. (2002). Age of propaganda: The everyday use and abuse of persuasion. New York: Holt Paperbacks.

Pyszczynski, T. (2004). What are we so afraid of? A terror management theory perspective on the politics of fear. Social Research, 71, 827-848.

Solomon, S., Greenberg, J., & Pyszczynski, T. (2015). The worm at the core: The role of death in life. New York: Random House.

Hans Rosling (1948-2017)

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Tenho falado sobre Hans Rosling desde 2010, quando passei a lecionar Métodos Inferenciais em Psicologia no PPG-PSTO da Universidade de Brasília. Faleceu ontem com 68 anos.

Ele era um grande divulgador da análise de dados, combatendo estereótipos negativos sobre estatística e promovendo seu ensino de maneira muito visual e divertida. Rosling também aplicava a estatística a grandes questões mundiais, como pobreza, expectativa de vida e epidemias. Seus artigos foram publicados em grandes revistas científicas e ele era professor emérito do Karolinska Institutet, na Suécia. Não tinha formação em psicologia, mas mencionava nossa área em muitos textos e entrevistas, conferindo aos fenômenos de influência social um papel sempre estratégico.

Os TEDs de Rosling tiveram enorme repercussão (http://www.ted.com/playlists/474/the_best_hans_rosling_talks_yo), assim como suas diversas aparições na grande mídia e o site de sua GapMinder Foundation – www.gapminder.org , com excelentes recursos para download gratuito.

Sempre começo o ensino de Métodos Inferenciais em Psicologia exibindo uma parte do “The joy of statistics”, documentário da BBC em que esse cara sueco, grandão, meio rabugento, meio engraçado, faz até os que odeiam números se interessar pelo assunto. Para quem não conhece, vale assistir a pelo menos os primeiros minutos legendados de https://www.youtube.com/watch?v=U5Q9zdIHbRU&t=1303s

Do documentário:
“The world we live in is awash with data that comes pouring in from everywhere around us. On its own, this data is just noise and confusion. To make sense of data, to find the meaning in it, we need the powerful branch of science – statistics.

Believe me, there is nothing boring about statistics, especially not today when we can make the data sing. With statistics, we can really make sense of the world. And there is more. With statistics, that data deluge, as it’s being called, is leading us to ever greater understanding of the life on earth and the universe beyond.

Thanks to the incredible power of today’s computers, it may fundamentally transform the process of scientific discovery.

And did you know? Statistics is now the sexiest subject around!” 🙂

Ele também deixava claro que qualidade e quantidade devem andar juntos em ciência, como Yin e Yang, sem falsas dicotomias que só atrasam nosso desenvolvimento.

B = f(P, E),

Fabio


Fabio Iglesias
www.influencia.unb.br